Conservadorismo x Evangélicos

Com a recente aproximação entre evangélicos, o atual governo Bolsonaro e a sua ala ideológica, principalmente ligada ao filósofo Olavo de Carvalho, tem surgido um interesse e um alinhamento de cristãos evangélicos com o conservadorismo. O interesse recente ainda engatinha no que diz respeito às ideias conservadoras, mas temos enxergado certo interesse na leitura de autores conservadores como Roger Scruton, Russel Kirk e Edmund Burke. Em certos arraiais evangélicos, porém, têm se bebido dos ideais conservadores de forma acrítica, vendo-o como algo inato ao cristianismo, ou seja, sem discernir o seu conteúdo com as lentes do Evangelho.

Acredito, e defenderei no decorrer desse artigo, que uma análise cristã das ideologias contemporâneas, como o conservadorismo, devem ou deveriam ser feitas por meio da antítese e nunca da síntese. O Evangelho sempre será relevante e atemporal justamente por conta de seu caráter antitético. O diálogo deve acontecer entre os “ismos” atuais, para que fique evidente o quanto o Evangelho não se assemelha a todo o tipo de sistema filosófico que não seja oriundo dos pressupostos bíblicos. E caso encontre-se alguma familiaridade conceitual, o diálogo deve mostrar que o determinado conceito originou-se da Escritura, sendo usurpado/enxertado pelo outro sistema. Por isso, quando sintetizamos o cristianismo com o marxismo, com o liberalismo ou com qualquer outro “ismo”, criamos um outro Evangelho, com acréscimos não escriturísticos, mas sim humanistas, pagãos. É sabido que todo Evangelho adulterado é maldito. A Palavra que sofre acréscimo remeterá a um culto idólatra, convergindo em apostasia. Por conta disso devemos fugir da síntese.

Sendo assim, fazendo uso da antítese, gostaria de propor neste breve artigo um diálogo no qual consideraremos os pontos de contato e de distanciamento da ideologia conservadora em relação a Cosmovisão cristã. Para isso, farei uso do apoio da influência de autores neo- calvinistas para ajudarem-nos a enxergar quais pontos de contato podemos ter com os conservadores e quais temos de manter-nos longe.

Primeiramente, devemos definir o que o conservadorismo é. Nas palavras de Roger Scruton, conservadorismo é a ideia de que “herdamos coletivamente coisas admiráveis que devemos nos empenhar para preservar […] O conservadorismo advém de um sentimento que toda pessoa madura compartilha com facilidade: a consciência de que as coisas admiráveis são facilmente destruídas, mas não são totalmente criadas”[1]. O cientista político canadense David Koysis nos diz que “os conservadores atribuem grande valor àquilo que provavelmente os torna mais conhecidos: a tradição. Tradição é o que herdamos do passado, dos nossos predecessores. É algo que resistiu à prova do tempo e mostrou ser útil à sociedade. Uma tradição nem sempre pode ser explicada racionalmente, mas ainda assim é confirmada pela experiência humana. Para o conservador, a tradição representa a experiência acumulada e a sabedoria das gerações passadas” [2]. Ou seja, ser conservador significa manter alguma coisa, preservá-la, enfrentando as forças que tendem a eliminá-la com o passar do tempo. O conservador está ciente de que qualquer tipo de mudança provoca perdas inevitáveis, frequentemente a perda de uma coisa boa que não pode ser substituída.

Vivendo na sociedade ocidental, influenciados pelo pensamento judaico-cristão, parece bem coerente que sejamos conservadores. Nós cristãos não queremos avanços na sociedade que façam as nossas bases de crenças sumirem do nosso meio. Não é possível vivermos sem roupas, talheres, lençóis, universidades, orquestras e assembleias legislativas, isto é, sem todos os frutos dos séculos de formação cultural, frutos que constituem a própria substancia da vida civilizada. Porém, como bem disse certa vez Jaroslav Pelikan, “a tradição é a fé viva dos mortos, mas o tradicionalismo é a fé morta dos vivos” [3]. É comum conservadores apelarem para o retorno da ‘era de ouro’ com certo olhar romantizado, como se no passado as coisas fossem sempre melhores. Porém, esquecemos que não é possível olhar para a tradição estritamente como algo bom, por serem humanas, elas são, além de falíveis, também inevitavelmente conflituosas em suas múltiplas vozes.

Por isso, uma das principais antíteses que devemos ter com uma visão conservadora purista é referente a qual tradição deva ser seguida. Como bem disse Herman Dooyeweerd, “a tradição, em si, contudo, não é uma norma ou modelo para determinar qual deveria ser a atitude de alguém diante de um poder que chama a si mesmo de “progressista”. A tradição contém o bom e o mau, e assim ela própria está sujeita à norma histórica” [4]. Sendo assim, como discernir entre uma e outra tradição sem cair no erro historicista? Sem relativizar toda a moral, ética, política, sociedade, etc., a partir do argumento de que cada comunidade possui seu próprio senso de verdade, manifestado em sua realidade temporal e espacial – sendo que esse não deve ser criticado a partir de padrões contemporâneos (ou, muito menos, transcendentais) do que é belo, verdadeiro, correto e bom? Qual é a tradição certa? Existiria uma? Qual o parâmetro para avaliar as normas tradicionais que devem permanecer e as que devem ser substituídas?

Como cristãos, devemos ser prudentes ao decidir qual tradição defender e qual rejeitar. Temos o exemplo dos nossos irmãos reformadores Calvino, Lutero, Zwinglio, entre outros, que ao enfrentarem tradições existentes (como o papado, a venda de indulgências, o desconhecimento que o povo tinha da Bíblia, etc. ), também buscaram recuperar a tradição correta e mais antiga advinda das Escrituras. Como bem disse David Koyzis: “Na pior das hipóteses esse conservadorismo cristão pode degenerar numa forma irracional de nacionalismo ‘por Deus e pela pátria’, incapaz de diferenciar a Grande Tradição [das Escrituras] das demais tradições [humanas].” [5]. Enquanto cristãos, devemos saber distinguir quais tradições concordam com a tradição verdadeira por excelência, para sabermos defender realmente o que é correto, justo e bom e não apenas um ideal nacionalista.

Além disso, devemos ter cautela com aqueles que se professam cristãos apenas por fazer parte do legado cultural do Ocidente. Para esses, a questão da veracidade da fé é secundaria diante da utilidade social dos ensinamentos éticos da religião cristã.

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